A produção científica da Universidade Federal de Roraima continua ultrapassando fronteiras e levando a Amazônia ao centro de importantes debates acadêmicos e culturais. Nesta edição do “Pesquisa e Inovação”, saberemos mais sobre uma pesquisa que debate a identidade imagética da Amazônia, projetos de Comunicação desenvolvidos por estudantes, além de pesquisas apresentadas em eventos nacionais e internacionais.
Pesquisa que investiga a construção da identidade imagética da Amazônia é apresentada por pesquisador da UFRR em Brasília

Com o trabalho intitulado “O símbolo germinal e imagens: a construção da identidade imagética da Amazônia (séculos XVI-XX)”, o professor e pesquisador do curso de Jornalismo da UFRR, Maurício Zouein, representou a instituição na 19ª Jornada do Centro Internacional de Estudos Peirceanos em Brasília.
Realizado durante o mês de maio na Universidade de Brasília (UnB), o evento reuniu pesquisadores da Rede Brasileira de Pesquisa em Semiótica Peirceana com o objetivo de fomentar o diálogo interdisciplinar: da lógica à estética, passando por Ciências Sociais e Humanas.
O trabalho do professor Maurício Zouein destaca os processos sígnicos que moldaram a identidade amazônica. A pesquisa aplica a Semiótica (a ciência geral dos signos e dos processos de significação), do autor Charles Peirce, e seu conceito de símbolo germinal para descrever signos iniciais que geram cadeias semióticas expansivas.
“Buscamos compreender como signos visuais perpetuam visões estereotipadas da maior floresta tropical do mundo. Na Amazônia, esses símbolos emergem em imagens do Brasil no século XVI em seguida mapas, gravuras e fotos da Amazônia até o séc. XIX, que semeiam um imaginário de “paraíso primitivo”, contraposto à soberania nacional brasileira”, explica o professor.
O estudo utiliza uma metodologia interdisciplinar, ao mesclar áreas como História, Comunicação e Semiótica, visando desconstruir matrizes iconográficas que transformam a floresta em signo de “exotismo selvagem” e outras persistências históricas. “Ideologias coloniais que veem a floresta como recurso explorável, ignorando saberes indígenas. O corpo como superfície semiótica é central: corpos indígenas e ribeirinhos não são meros objetos, mas signos performáticos, tatuados por matrizes iconográficas que reforçam estereótipos de ‘primitivismo’. Enquanto o Brasil reivindica a Amazônia como patrimônio, visões externas – via cinema, mídia e arte – perpetuam narrativas de ‘fronteira vulnerável’, alimentando disputas geopolíticas”, destaca Maurício.
O docente destaca o papel do evento na produção científica brasileira dentro da área da Semiótica. “Em tempos de crises ambientais e culturais, esse tipo de discussão é crucial. Compreender processos sígnicos que moldam a visão global da Amazônia não é abstração acadêmica, mas ferramenta para descolonizar imaginários e fortalecer narrativas soberanas”, analisa.
Com temas ligados a Amazônia e povos originários, estudantes de Jornalismo ganham destaque em etapa regional de premiação na área de Comunicação
O curso de Jornalismo da UFRR conquistou seis prêmios na etapa regional Norte da Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom). Os projetos abordam temas ligados à Amazônia, aos povos originários, à Comunicação Digital, ao Jornalismo Literário, à Fotografia e ao Audiovisual.
Entre os trabalhos premiados está o editorial “Narrativas originárias: quando contar também é resistir”, que integra a Revista Raízes Jovens, das acadêmicas Marily Brandão de Souza e Mariane Fontenele, que foi o vencedor na modalidade “Produção em Jornalismo de Opinião”.

Além dele, o documentário “O preço do ouro”, produzido pela egressa Abgail Ramos, orientado pelo professor Maurício Zouein, que retrata os impactos da mineração ilegal e da contaminação por mercúrio na comunidade da Vila Vista Alegre, em Caracaraí, também recebeu a honraria.
O trabalho “Processo da tinta de jenipapo”, desenvolvido pelos alunos da graduação Keissy Julienne, Jhennifer Silva, Kayla Silva e Maciel Luiz obteve destaque no quesito fotografia artística. O registro foi produzido na disciplina de Fotojornalismo II, ministrada pelo professor Maurício Zouein, e retrata práticas tradicionais ligadas aos povos indígenas, com imagens realizadas na comunidade indígena Canauanim, no município do Cantá.
Na categoria Livro-reportagem, o primeiro lugar ficou com “O peso da culpa”, da egressa Allyne Victoria Bentes Ferreira, que contou com a orientação da professora Tatiane Hilgemberg. Já na categoria Documentário Jornalístico e Grande Reportagem em Áudio e Rádio foi premiado “O sustento vem das águas: a vida do pescador no Rio Branco”, produzido pelas estudantes Juliana Soares, Jhennifer Silva, Keissy Julienne, Victória Araújo e Yasmin Tavares, sob orientação do professor Felipe Collar Berni.
Ainda na categoria Gestão de Web/Mídias Sociais, o destaque da UFRR foi o projeto “Plano de divulgação científica para o PPGCOM da UFRR: uma experiência aliada à comunicação organizacional”, desenvolvido pelo egresso Thiago Santos Marinho de Lima, orientado pelo professor Tarcísio Oliveira.
Para o coordenador do curso de Jornalismo da UFRR, Felipe Collar, o reconhecimento representa um importante incentivo à produção acadêmica dos estudantes. “O curso se alegra com essas conquistas. É um reconhecimento muito especial vindo de uma premiação tão significativa para o campo da Comunicação como o Expocom. Tivemos um engajamento muito bacana dos estudantes com a premiação e isso gera o fortalecimento de uma cultura menos competitiva e mais celebrativa. Agora, é focar na etapa nacional, com o compromisso redobrado de não só representar a nossa Universidade, mas toda a região Norte, a Amazônia e esses múltiplos territórios que nos atravessam”, afirma.
Expocom e Intercom
A Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação é uma premiação promovida pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) que reconhece os melhores trabalhos experimentais produzidos por estudantes em todo o país.
A competição contempla diversas áreas da Comunicação, incluindo Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas, Rádio, TV, Cinema, Fotografia e Mídias Digitais.
Para esta edição, o Curso de Jornalismo da UFRR levou 15 trabalhos para a etapa regional. Os vencedores seguem para a fase nacional que será realizada durante o Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom). Em 2026, a etapa final será realizada entre os dias 1º e 5 de setembro, na Universidade Católica de Brasília, em Brasília.
Professora leva pesquisa sobre cosmologia Yanomami a festival internacional no País de Gales

A antropóloga, escritora e professora do curso de Licenciatura Intercultural do Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena da UFRR, Hanna Limulja, foi a representante da instituição no Hay Festival 2026, renomado festival internacional de Literatura e Artes realizado na cidade de Hay-on-Wye, no País de Gales. O evento ocorreu entre os dias 21 e 31 de maio.
A participação da docente aconteceu com a delegação da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) por meio de uma parceria que ocorreu como parte da Temporada Cultural Reino Unido /Brasil 2025/2026.
Hanna inaugurou a participação brasileira falando sobre seu livro chamado “O desejo dos outros — Uma etnografia dos sonhos yanomami (Ubu)”. A professora dividiu uma mesa que abordou sobre Cultura Indígena junto com a escritora boliviana, Liliana Colanzi, que abordou sobre seu livro intitulado “Vocês brilham no escuro”.
Na ocasião, a docente da UFRR destacou a honra de representar a instituição e trazer um pouco mais sobre sua pesquisa e os povos indígenas Yanomami. “O livro é fruto da minha tese de doutorado, portanto, uma pesquisa de longa duração. Para mim é um prazer, uma honra representar a UFRR e apresentar um pouco da maneira como os Yanomami sonham, da sua cosmologia, acho importante ter esse tipo de debate para além da academia. Temos um papel importante em falar desses temas fora do Brasil para um público que não tem dimensão da realidade brasileira e, sobretudo, dos povos indígenas do Brasil”, afirma.
Pesquisadora da UFRR representa Roraima em colóquio nacional sobre Literatura Infantil e Juvenil

A professora de Língua Portuguesa e Literatura da UFRR, Raquel Endalécio Martins, foi a representante da universidade e do estado de Roraima no I Colóquio Nacional de Literatura Infantil/Juvenil na graduação: Paisagens e Horizontes.
O evento realizado entre os dias 26 a 28 de maio de forma remota é fruto de uma parceria entre a Universidade do Rio de Janeiro (UERJ), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp-Assis).
O principal objetivo do Colóquio foi discutir os cenários e desafios relacionados à inclusão obrigatória da disciplina de Literatura Infantil e Juvenil nos cursos de graduação em Letras, Educação, Biblioteconomia e afins, em instituições de todo o Brasil.
Durante o evento, a professora participou do grupo de trabalho “Vozes do Norte: LIJ entre memórias, encantarias, rios e florestas”, onde apresentou a pesquisa intitulada “A literatura infantil e juvenil na formação de professores da Educação Básica”.
Segundo a docente, o estudo evidencia o potencial da Literatura Infantil e Juvenil como ferramenta para formação de leitores e desenvolvimento do pensamento crítico em todas as idades. “A pesquisa mostra que, a partir da leitura desses textos, além do resgate da história de leitura dos leitores (professores em formação), é possível propor estratégias reais e palpáveis de acordo com cada realidade. Em outras palavras, um bom trabalho a partir da Literatura Infantil e Juvenil pode subsidiar resoluções de problemas na comunidade escolar, além de estabelecer diálogo significativo com outras disciplinas escolares como: Educação Física, História, Geografia, Matemática, indo muito além das aulas de Língua Portuguesa”, destaca.
Ainda sobre o trabalho, Raquel explica que a Literatura Infantil alcança públicos diversos justamente por apresentar uma linguagem acessível sem perder sua dimensão poética. “Talvez pelo fato de o livro infantil ter que comunicar de forma mais clara ou por seus leitores não precisarem “se armar” para fazer sua leitura, ele alcança um público tão diverso. Por exemplo: já trabalhei com o livro “Um nó na cabeça”, de Rosa Amanda Strauzs, com crianças de 8 anos, com alunos da Licenciatura em Educação do Campo, na formação e aperfeiçoamento de professores da rede pública de Roraima e de São Paulo e com os mestrandos do Profletras no Pará. Ou seja, a partir do mesmo objeto de estudo é possível trabalho muito diverso”, revela.
A pesquisadora ressalta ainda que o contato com textos infantis possibilita aos futuros professores revisitar suas próprias trajetórias como leitores, fortalecendo sua atuação em sala de aula. “A partir da leitura de textos infantis, retomamos com os leitores sua história de leitura, que pode começar com textos escritos ou orais, e a partir desse resgate os leitores (e professores em formação que é meu principal público) se apropriam de suas próprias histórias, seus (des)gostos em seu processo de leitura e se sentem mais confiantes de trabalhar leitura e literatura com seus alunos; a partir da sua própria realidade e desafios”, analisa Raquel.
Oficina de extensão em Iracema e São Paulo
Com o mesmo foco de trabalho em leitura de textos infantis/juvenis e o resgate da história de leitura dos leitores (professores em formação), foi realizado um projeto com oficinas em duas escolas. A Escola Municipal Criança Feliz, em Iracema, recebeu a iniciativa nos dias 12 e 13 de maio, enquanto a EMEF Paulo Nogueira Filho, em São Paulo, sediou a ação nos dias 12 e 24 de março e 02 de abril.
As oficinas de formação são parte do estágio pós-doutoral com a pesquisa “Filologia, Literatura e Educação do Campo: (Re) conexões com a educação básica”, na USP. A proposta é investigar a recepção de professores da rede pública da Prefeitura de São Paulo e da Prefeitura de Iracema-RR em relação aos livros do escritor roraimense Túlio Filgueiras e da escritora paulista Flávia Reis.
Conforme a professora Raquel Endalécio, esta é uma iniciativa de curricularização da extensão da Licenciatura em Educação do Campo e realizado em parceria com a USP, UFRR, Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME), Diretoria Pedagógica da Diretoria Regional de Educação (Freguesia/Brasilândia), e Secretaria Municipal de Educação de Iracema (SEMED- IRACEMA).
Texto: Marcos Martins – Bolsista de Pesquisa em Comunicação – PRPPG/TV Universitária/Coordcom
Texto base da matéria sobreExpocom e Intercom: Curso de Jornalismo da UFRR
Apuração inicial na matéria sobre a professora Raquel Endalécio Martins: Aldenor Pimentel – Jornalista do Gabinete da Vice-Reitoria da UFRR
Montagem e revisão: Raphaela Queiroz – Servidora da Coordcom/UFRR