Publicado em: 17 de julho de 2026
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Nesta edição do Pesquisa & Inovação, destacamos um projeto de inovação tecnológica da UFRR premiado pelo desenvolvimento de materiais terapêuticos acessíveis para adolescentes neurodivergentes, uma pesquisa sobre gênero, educação e cultura digital que ganhou projeção em evento acadêmico internacional e um programa de monitoramento ecológico de longa duração que se consolida como referência científica para o estudo dos ecossistemas amazônicos. 

As iniciativas evidenciam a diversidade da produção científica da universidade e sua contribuição para a inclusão social, o debate de questões contemporâneas e a geração de conhecimento voltado à conservação ambiental e ao desenvolvimento sustentável.



O projeto TEIA.A foi desenvolvido pela acadêmica Vitória Gabriele Moreira Caldas, sob orientação da professora de Física da UFRR Denise Andrade do Nascimento – Foto: Arquivo Pessoal – Denise Andrade do Nascimento



Produzir dispositivos terapêuticos e educacionais de baixo custo voltados a adolescentes neurodivergentes. Essa é a proposta do projeto da Universidade Federal de Roraima (UFRR) que conquistou o primeiro lugar na 14ª edição do Encontro Científico do Programa Bolsa de Inovação Tecnológica de Roraima (BITERR), promovido pelo Instituto Euvaldo Lodi (IEL-RR), em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-RR) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Roraima (Sebrae-RR).

O projeto TEIA.A – Tecnologias para o Engajamento, Inclusão e Aprendizagem Acessível foi desenvolvido pela acadêmica, Vitória Gabriele Moreira Caldas, sob orientação da professora do curso de Licenciatura em Física, Denise Andrade do Nascimento, em parceria com a Clínica Colorê.

Entre os recursos desenvolvidos por meio de impressão 3D e design adaptável às necessidades individuais dos pacientes estão cubos infinitos, mascotes articulados e materiais destinados ao estímulo da atenção, coordenação motora, comunicação e regulação sensorial.

Para a professora Denise, a premiação demonstra que a pesquisa desenvolvida na universidade pode gerar soluções concretas para desafios sociais reais. “Mais do que um prêmio, esse resultado mostra que inovação e inclusão podem caminhar juntas”, avalia.

Segundo a professora, atualmente, o projeto está na etapa de aperfeiçoamento e validação dos recursos desenvolvidos. Os próximos passos são ampliar os testes, desenvolver novos recursos terapêuticos e educacionais e elaborar protocolos que permitam avaliar os impactos das tecnologias produzidas. “A expectativa é que os resultados obtidos possam contribuir para a criação de soluções acessíveis que possam ser utilizadas por outras instituições e profissionais que atuam com o público neurodivergente”, afirma.

O projeto contou com o apoio do Laboratório de Instrumentação e Ensino de Física da UFRR, coordenado pela própria Denise, espaço que tem sido utilizado para o desenvolvimento de pesquisas envolvendo impressão 3D, tecnologias educacionais, instrumentação e soluções tecnológicas de baixo custo.

A professora destacou ainda que, nos últimos anos, o Departamento de Física da UFRR tem ampliado sua atuação para além das áreas tradicionais da Física, desenvolvendo projetos que envolvem inovação tecnológica, educação, acessibilidade e inclusão social. “Diversas iniciativas têm utilizado ferramentas como impressão 3D, Arduino, robótica educacional, fabricação digital e tecnologias assistivas para criar soluções voltadas à educação, à saúde e à inclusão”, acrescenta.




Alessandra Lima Medeiros palestrou como representante do Sul Global no webinar “The Pushback Against Women’s Rights Must Be Stopped: Manosphere, Patriarchy and Misogyny 4.0” – Foto: Reprodução – webinar “The Pushback Against Women’s Rights Must Be Stopped: Manosphere, Patriarchy and Misogyny 4.0”


Outra pesquisa da UFRR com recente destaque internacional é a da doutoranda em Educação na Amazônia da UFRR, Alessandra Lima Medeiros, uma das palestrantes do webinar “The Pushback Against Women’s Rights Must Be Stopped: Manosphere, Patriarchy and Misogyny 4.0” (“A reação contra os direitos das mulheres precisa ser interrompida: manosfera, patriarcado e misoginia 4.0”, em tradução livre).

O webinar foi promovido no dia 20 de abril pela Geneva Global Health Hub, associação sediada na Suíça que reúne especialistas de diferentes países para discutir os desafios contemporâneos relacionados aos direitos das mulheres e está disponível em árabe, inglês e português.

De acordo com a doutoranda, como representante do Sul Global, sua participação no webinar conectou a realidade amazônica e brasileira a debates internacionais contemporâneos sobre cultura digital, discursos de ódio, algoritmos, masculinidades e violência simbólica. “A minha pesquisa ganha destaque justamente por trazer uma perspectiva amazônica para um debate que ainda é muito concentrado no Norte Global, mostrando que a Amazônia também produz análises críticas fundamentais sobre democracia, gênero e tecnologia”, avalia.

Na sua dissertação de mestrado em Sociedade e Fronteiras, Alessandra Lima Medeiros investigou como discursos conservadores e proposições legislativas antigênero impactam a educação, os direitos humanos e as políticas públicas no contexto roraimense. A pesquisa demonstrou que a ofensiva antigênero em Roraima não é episódica nem espontânea, mas parte de um projeto político articulado que utiliza o discurso moral para controlar debates públicos, especialmente na educação, e marginalizar pessoas LGBTQIAPN+.

“Enquanto o estado investe em legislações que proíbem debates sobre gênero nas escolas, ele mantém os maiores índices de violência sexual do país. A retórica de ‘proteção’ serve, portanto, para mascarar a negligência estatal e a falta de políticas efetivas de proteção real contra a violência estrutural”, comenta Alessandra.

No primeiro semestre do Doutorado em Educação na Amazônia, Alessandra Medeiros pesquisarelações entre misoginia digital, socialização juvenil, plataformas digitais e ambiente escolar, sob orientação do professor Vilso Santi.


Coordenado pelo professor da UFRR Marcos José Salgado Vital, o PELD FORR está em atividade em Roraima há cerca de 15 anos – Foto: Arquivo Pessoal – Marcos José Salgado Vital


O PELD FORR está em atividade em Roraima há cerca de 15 anos e é ligado nacionalmente ao PELD, uma rede de 55 sítios de pesquisa e em torno de 2.500 pesquisadores que está presente em todos os biomas do país e há 28 anos acompanha de forma contínua as transformações dos ecossistemas brasileiros.

Para o coordenador do PELD FORR, a importância do sítio de pesquisa é gerar séries históricas de dados ecológicos e sociais sobre o extremo norte da Amazônia brasileira que servem como uma referência científica nacional e internacional. “Longe de ser apenas um projeto restrito às prateleiras acadêmicas, ele atua como um ‘laboratório vivo’, conectando o conhecimento científico com as necessidades reais da sociedade, de comunidades tradicionais e de gestores públicos”, explica o professor.

Em Roraima, o PELD FORR desenvolve pesquisas sobre a ecologia e a resiliência dos ecossistemas amazônicos em áreas de transição, como as campinaranas e florestas estacionais. As ações de monitoramento são realizadas em cinco áreas: Parque Nacional do Viruá (Caracaraí); Estação Ecológica de Maracá (Amajari); Castanhal Vale Verde (Caracaraí); Castanhal Itã (Caracaraí); e Castanhal Vicinal 29 (São João da Baliza).

Os estudos acompanham, ao longo do tempo, a resposta da biodiversidade, do ciclo de carbono e da produtividade de espécies nativas frente a eventos climáticos extremos e incêndios florestais, o que contribui para a formulação de políticas públicas de conservação, o manejo integrado do fogo e o fortalecimento da sociobiodiversidade regional.

Os pesquisadores coletam dados em campo usando desde sensores avançados e monitoramento de lençóis freáticos até entrevistas detalhadas com moradores tradicionais. Além disso, o projeto trabalha para superar desafios de logística e segurança regional, como a interrupção temporária de pesquisas na Estação Ecológica de Maracá por conta da presença de garimpos ilegais vinculados ao crime organizado no entorno da unidade.

Como resultado, o estudo apontou, por exemplo, uma queda drástica na safra de castanhas entre 2024 e 2025, por causa do fenômeno El Niño, servindo de guia prático com orientações estratégicas para proteger a cadeia produtiva local. El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico. Outro resultado foi desvendar como a vegetação campinarana reage ao fogo, o que permitiu gerar subsídios técnicos para a adoção de queimas prescritas e preventivas, reduzindo a vulnerabilidade da região a grandes incêndios.

“Além de publicar inúmeros artigos em revistas de alto impacto, o PELD FORR traduziu sua ciência em cartilhas acessíveis como ‘Castanheira, uma gigante amazônica’, ‘Um passeio pelo Parque Nacional do Viruá’ e a obra infantojuvenil ‘A Fantástica Biodiversidade do Viruá’, largamente adotada como material didático escolar”, informou o professor.

O PELD FORR tem como vice-coordenadora a pesquisadora, Carolina Volkmer de Castilho, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e é composta por uma equipe interdisciplinar de cientistas, ancorada na UFRR, por meio do Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais (PRONAT). Conta ainda com parcerias científicas, como a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal do Paraná (UFPR), além de apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), bem como de moradores de comunidades locais, pescadores artesanais, agricultores familiares, extrativistas tradicionais e educadores comunitários.

“Essas respostas demonstram como o PELD FORR não apenas monitora a biodiversidade amazônica, mas constrói de forma democrática uma ponte sólida entre a floresta, os saberes tradicionais e o futuro sustentável da região”, comentou o professor.


Texto: Aldenor Pimentel – Jornalista do Gabinete da Vice-Reitoria da UFRR
Revisão: Marcos Martins – Bolsista de Pesquisa em Comunicação – PRPPG/TV Universitária/Coordcom
Montagem: Pablo Felippe – Servidor da Coordcom/UFRR