Publicado em: 25 de julho de 2025
Atualizado em: 28 de julho de 2025
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Trabalhos reforçam o papel estratégico da UFRR na produção de conhecimento e no compromisso com as realidades socioculturais da região

Duas pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal de Roraima colocaram a produção científica da Amazônia em evidência no cenário nacional e internacional. Um estudo sobre a saúde ocular do povo Yanomami foi publicado na prestigiada revista The Lancet Regional Health – Americas. Já um professor e pesquisador do curso de Comunicação Social/Jornalismo apresentou, em Congresso Internacional da Associação Brasileira de Estudos Semióticos (ABES), um trabalho que investiga o corpo e a semiótica na construção da identidade amazônica. 


Estudo revela dados sobre a saúde ocular da população Yanomami 


O estudo “Prevalence of Blindness and Visual Impairment Among Yanomami Indigenous People in the Brazilian Amazon Region: A Cross-Sectional Observational Study at CASAI-Y” é fruto da dissertação de mestrado da Dra. Maria Christina Chagas Ferreira com a coautoria dos pesquisadores e professores da UFRR, Marcos Antonio Pellegrini e Bianca Jorge Sequeira, e desenvolvido dentro do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde (PROCISA/UFRR). 

A pesquisa foi realizada entre junho e agosto de 2024 e avaliou 158 indivíduos Yanomami com exames completos de visão, incluindo medida de acuidade visual, tonometria e avaliação fundoscópica, na CASAI-Y, em Boa Vista. Ao todo, foram realizadas quatro visitas para concluir o estudo, que envolveu a Maria Christina Ferreira como médica oftalmologista, duas auxiliares de oftalmologia que realizaram os exames objetivos, quatro alunos da Universidade Estadual de Roraima (UERR) e também o auxílio de intérpretes da CASAI.

A autora do artigo, Maria Christina Ferreira, explica que esta é a primeira avaliação sistemática da saúde ocular entre os Yanomami. “O estudo evidencia uma alta prevalência de deficiência visual evitável, fortemente relacionada à falta de acesso a serviços oftalmológicos e a recursos básicos de correção visual, como óculos. Os resultados apontam para a necessidade urgente de ações estruturadas e culturalmente adequadas para o enfrentamento da deficiência visual em populações indígenas”, comenta.

Na época, Maria era mestranda do PROCISA e destaca que a ideia do estudo surgiu após perceber que faltavam dados sistematizados sobre saúde ocular dos povos originários e, principalmente, dos Yanomami. “Eles [os yanomami] são uma população única, pois têm recente contato, alta mobilidade, difícil acesso, especificidades culturais ímpares. Como oftalmologista e pesquisadora da UFRR, percebi a urgência de conhecer as características e riscos à saúde ocular dos Yanomami e não apenas por razões acadêmicas, mas principalmente para subsidiar políticas públicas e garantir o direito à saúde integral para essas comunidades”, explica a pesquisadora.

Como desdobramento técnico da pesquisa, foi desenvolvido um conjunto de tabelas adaptadas para o diagnóstico de baixa visão em populações indígenas, permitindo a ampliação do rastreio e da classificação de casos mesmo em contextos de infraestrutura limitada. Essas ferramentas tem o objetivo de apoiar profissionais da saúde na identificação precoce de comprometimentos visuais nessas populações e contribuir para políticas públicas mais eficazes. 



“Trabalhar com populações indígenas exige uma abordagem ética, com sensibilidade cultural e criatividade logística. Utilizamos uma metodologia que envolveu a validação de uma amostra de conveniência, utilizando a Casai como base, devido às dificuldades logísticas de acessar a Terra Yanomami. Ocorreram muitos desafios, desde a aprovação ética e as autorizações institucionais, até a realização dos exames em um ambiente com barreiras linguísticas e costumes específicos, mas esses desafios foram enfrentados com muito diálogo, respeito e apoio das instituições envolvidas. Fiz muitos amigos pelo caminho e fiquei muito feliz com o nosso resultado”, revela ainda Maria Christina sobre como foi o processo de realização da pesquisa.

Devido ao ineditismo e importância do estudo, o artigo foi publicado na prestigiada revista internacional The Lancet Regional Health – Americas. A pesquisadora comenta sobre a alegria de ter um estudo da UFRR tendo esse reconhecimento internacional. “É uma emoção imensa. Esse foi um trabalho que nasceu em sala de aula, das discussões durante as aulas do PROCISA, a partir de um compromisso com a ciência e de um cuidado com as populações indígenas. O fato dele ser reconhecido internacionalmente é algo que vai muito além do mérito acadêmico. Vejo isso como uma conquista coletiva da UFRR, dos professores, dos pesquisadores envolvidos, dos profissionais da saúde indígena e, sobretudo, da generosidade dos Yanomami, que confiaram em nós. Mostra que é possível produzir ciência na Amazônia, dentro das melhores práticas reconhecidas pela comunidade internacional, com impacto ampliado e resultados que podem melhorar a vida dessas populações”, afirma ainda.

Os interessados podem acessar o artigo por meio da página da Science Direct e também no site da PubMed. A dissertação completa com os produtos técnicos derivados do estudo está no site institucional da PROCISA/UFRR


Ressignificando narrativas visuais: Amazônia e Semiótica em Congresso Internacional


O professor e pesquisador do curso de Comunicação Social/Jornalismo da UFRR e coordenador do Núcleo de Pesquisa Semiótica da Amazônia, Maurício Zouein, apresentou sua pesquisa sobre Corpo e Semiótica na identidade imagética da Amazônia no VI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Estudos Semióticos (ABES), realizado entre os dias 01 e 04 de julho, na Universidade de São Paulo (USP).

A conferência do professor explorou como as representações visuais da região, desde o século XIX, construíram narrativas ambíguas entre o exótico e o marginalizado. “Imagens históricas da Amazônia oscilam entre a fascinação colonial e a documentação da pobreza, revelando como a fotografia foi instrumentalizada para projetos civilizatórios-exploratórios”, afirmou Zouein, destacando a necessidade de ressignificar essas narrativas visuais.

Durante o evento, o professor coordenou o simpósio “Ecosemiótica: Corpo e Imagem na Amazônia”, mostrando o estudo para pesquisadores de áreas como Antropologia, Comunicação e Artes com o objetivo de debater as interações que existem entre signos visuais, corporeidade e meio ambiente. “A Amazônia é um território de disputas simbólicas, onde corpos e imagens desafiam estereótipos e colonialismos”, enfatizando que uma abordagem interdisciplinar é ferramenta importante para desvendar camadas ideológicas nas representações que se fazem da região.

Sobre a participação no Congresso, o pesquisador destaca a urgência de incluir vozes amazônicas nesses diálogos. A busca é por trazer novas leituras para uma região frequentemente reduzida a clichês. “Trabalhos e convites como esses evidenciam que a Amazônia não é apenas objeto de estudo, mas também pode ser protagonista na produção de conhecimento científico”, ressaltou Zouein.


Esta edição do Congresso da ABES trouxe como nome o tema “Presenças” e debateu o papel da semiótica na sociedade contemporânea, principalmente nos contextos de plataformização digital e disputas narrativas. Ainda durante o evento, o professor da UFRR integrou o conselho científico do congresso ao lado de renomados pesquisadores internacionais, como Clotilde Peres (ECA-SP), Denis Bertrand (Université Paris 8), Lucia Santaella (PUC-SP) e Massimo Leone (Università di Torino) e Renata Mancini (FFLCH/USP).

Além disso, o pesquisador Maurício Zouein também atuou como curador da exposição “Os ‘Pobres Exóticos’: fotografia e o projeto civilizatório-exploratório”, que marcou os 160 anos da fotografia na Amazônia. 

Segundo Zouein, a Mostra buscou revelar como as lentes do século XIX perpetuaram paradoxos entre dignidade e exotização, temas que ecoam em discussões contemporâneas sobre identidade e memória. Os registros da amostra são de Walter Humrewell (1865) e Christoph Albert Frisch (1867). 

A presidente da Associação Brasileira de Estudos Semióticos (ABES) e coordenadora do evento, Renata Mancini, destacou o trabalho do professor. “Só tenho a agradecer a presença do professor Maurício Zouein que teve uma participação múltipla e muito engajada coordenando o Simpósio, ministrando palestra e a exposição fotográfica na qual ele foi curador que foi muito bem recebida pelos mais de 400 participantes do congresso. Desejo vida longa também e ainda mais exitosa ao Núcleo de Pesquisa Semiótica da Amazônia”, afirma Renata.

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