
A Universidade Federal de Roraima (UFRR) encerrou, na última quarta-feira (21), a “Capacitação Integrada para a Gestão do Território Yanomami e Educação: fronteira, escola e territorialização”. A atividade ocorreu no campus Paricarana, e contou com cerca de 25 participantes, entre professores contratados e bolsistas dos projetos que atuarão diretamente no Território Indígena Yanomami.
O curso é ofertado pelas coordenações dos projetos Educação de Jovens e Adultos (EJA) na Terra Indígena Yanomami e Fortalecimento da Soberania Alimentar da Terra Indígena Yanomami, em parceria com a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (PROGESP/UFRR) e a Coordenação de Capacitação do Servidor (CAPS/UFRR). A capacitação foi híbrida, nas modalidades presencial e virtual, com carga horária total de 44 horas.
A formação iniciou em 5 de janeiro, a abertura contou com a presença da presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joênia Wapichana, do vice-reitor da UFRR, Silvestre Lopes da Nóbrega, e da pró-reitora de Ensino e Graduação da UFRR, Leuda Evangelista, que destacaram a importância da formação para o fortalecimento da educação indígena e da atuação institucional da universidade junto aos povos originários.
Ao todo, foram contratados dez profissionais da educação, todos com licenciatura, para atuar nas seguintes áreas: Língua Portuguesa (duas vagas); Educação Física (uma vaga); Arte – Artes Visuais, Dança, Música, Teatro ou Licenciatura Intercultural (uma vaga); História (uma vaga); Geografia (uma vaga); Ciências – Ciências Biológicas, Ciências da Natureza ou Educação do Campo (uma vaga); Matemática (uma vaga); e Pedagogia (duas vagas).
Como forma de fortalecer a representatividade e ampliar a efetividade do ensino nas comunidades atendidas, candidatos indígenas receberam acréscimo de 30 pontos na nota final do processo seletivo. Também participam do projeto 16 bolsistas, entre profissionais e acadêmicos vinculados à UFRR.
De acordo com a coordenadora pedagógica da EJA Yanomami, Edjane Scacabarossi, a formação é fundamental para preparar os profissionais que atuarão diretamente com estudantes Sanöma, a partir de fevereiro, no tempo escola.
“Nós vamos iniciar as aulas em fevereiro e teremos duas turmas: uma de primeiro ano, com 26 alunos, e uma de sexto ano, com aproximadamente 44 alunos. Trabalhamos com a pedagogia da alternância, então esses profissionais de educação ficarão 15 dias na comunidade de Awaris, na Terra Indígena Yanomami, e depois retornam. Os alunos levam material para suas comunidades, realizam as atividades e, no retorno, dão continuidade ao processo formativo”, explicou.
A programação da capacitação abordou temas centrais para a atuação educacional no Território Indígena Yanomami, incluindo a apresentação do projeto EJA-Yanomami, fundamentos pedagógicos e estruturais, memória, história, cultura e saberes do povo Yanomami/Sanöma, além do histórico do contato com os não indígenas. Segundo Edjane, o projeto atende 35 comunidades Yanomami do povo Sanöma e tem como expectativa fortalecer o acesso ao conhecimento como instrumento de defesa territorial.
“Eles pedem muito esse conhecimento para que possam defender o seu território. Prezamos para que, junto com os profissionais da educação, eles consigam se fortalecer cada vez mais e que, ao final do projeto, possamos alcançar aquilo que eles tanto almejam”, destacou.
A diretora do Colégio de Aplicação da UFRR e coordenadora da área educacional no projeto Yanomami, Adriana Santos ressaltou que a capacitação propõe uma abordagem integrada entre educação e território. Também foram discutidos diálogos antropológicos contemporâneos, normas e procedimentos para ingresso em terras indígenas, gestão territorial, soberania alimentar, monitoramento em TIY, processos formativos em contextos de vulnerabilidade, e o papel da língua indígena como base para uma educação escolar decolonizadora e culturalmente relevante
“É uma formação específica que busca estabelecer relação com a gestão do território indígena, articulando educação, atividades produtivas, proteção territorial e saúde. Também trabalhamos as questões socioculturais e a espiritualidade do povo Yanomami”, afirmou.
Entre os participantes, está o professor de Geografia Denilson Feitosa de Oliveira, do povo Baré, de Barcelos (AM), destacou a importância da formação para a atuação no território. “Estou muito feliz de fazer parte desse projeto. A expectativa é fazer um bom trabalho, conhecer uma nova realidade e um território indígena de grande riqueza. A capacitação é muito importante porque traz contribuições e informações necessárias para que possamos realizar um bom trabalho”, disse.
Para a professora de História, Carmem da Silva Ribeiro, dos povos Macuxi e Wapichana, esta será a primeira experiência na educação indígena. “Acredito que vai ser uma experiência de grande aprendizado e troca de conhecimentos. Sou apaixonada pela educação indígena e essa capacitação vem para reforçar esse novo olhar, essa nova perspectiva de ensinar e aprender. É um processo de decolonização da educação, não só da questão indígena, mas da forma como a gente compreende o conhecimento”, destacou.
A capacitação tem como objetivo principal qualificar a atuação dos profissionais da educação a partir da compreensão dos fundamentos socioculturais, históricos, territoriais e pedagógicos do povo Yanomami/Sanöma, fortalecendo uma prática educativa comprometida com os direitos, a autonomia e a proteção do território indígena.