Publicado em: 10 de maio de 2026
Compartilhe:


O Dia das Mães é celebrado historicamente no dia 10 de maio e desde que foi oficializado nos anos 1930 se transformou em uma tradição da cultura brasileira. Para marcar essa data, trouxemos uma história que se entrelaça com os caminhos da Universidade Federal de Roraima.

Em comum, a professora Vângela Pereira de Morais e seu filho, João Fellipe Pereira de Morais, compartilham mais do que vínculos familiares, mas também memórias, formação humana, trajetórias profissionais e uma relação afetiva construída dentro da Universidade.

Vângela chegou a Roraima em 1994, aos 26 anos, recém-formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Cearense, ela vivia um período de profundas transformações pessoais. Grávida do primeiro filho, desembarcou em Boa Vista trazendo consigo novos planos de vida e o desejo de recomeçar.

No mesmo ano, ingressou na UFRR como jornalista no setor que hoje corresponde à Coordenadoria de Comunicação (COORDCOM/UFRR). Meses depois, nasceu João Fellipe. “Tudo novo, a paisagem lavradeira, as pessoas, o trabalho e meu corpo materno. Meu primeiro filho, João Fellipe, nasceu meses depois desse meu primeiro ingresso como técnica-administrativa. A UFRR também era uma criança de cinco anos, e passamos a dividir a experiência daquelas infâncias”, relembra.

Em 1997, Vângela decidiu seguir o caminho da docência. Aprovada em novo concurso, passou a atuar como professora do curso de Comunicação Social/Jornalismo na instituição. Hoje, soma quase três décadas dedicadas à universidade. “Vendo pela lente do tempo, acho que vir para Roraima, ingressar na UFRR e ser mãe foram três processos interdependentes e profundamente transformadores, especialmente pelos deslocamentos físicos, simbólicos de si própria”, afirma.

Embora a docência não estivesse inicialmente em seus planos, ela conta que foi dentro da própria UFRR que nasceu o desejo de ensinar. “Achava que seguiria o caminho da prática profissional do jornalismo, mas na UFRR passei a sonhar com a docência. Nesta semana, ouvi o xamã Davi Kopenawa Yanomami falar da força dos sonhos, das dinâmicas que habitam o sonho. Gosto disso. Então, acredito que devo ter sonhado algo forte que vem alimentando a energia aplicada nesses quase 30 anos de docência”, observa Vângela.

A professora ainda reflete sobre as mudanças que ocorreram na profissão desde quando se transformou em uma professora até os dias de hoje. “A minha geração viveu profissionalmente o trânsito entre dois séculos. As novas competências digitais reformularam projetos pedagógicos, estruturas curriculares, assim como as dinâmicas em sala de aula. Penso que diante da profusão de conteúdos, da facilidade e rapidez de acesso, a ação docente, além de se voltar para as competências técnicas e operacionais das novas mídias aponta para outras habilidades que seguem relevantes no ensino do jornalismo: saber filtrar, apurar, relacionar sentidos, incentivar senso crítico e justiça social. As tecnologias respondem em grande parte pelas mudanças, inclusive, no ato letivo, mas acredito que o cenário social, econômico e geopolítico que ocupamos, continua sendo a moldura principal e versátil que mobiliza as nossas práticas”, analisa.


Para a homenagem do Dia das Mães de 2026, a professora Vângela Morais e o servidor João Fellipe fotografaram junto dos pequenos Gustavo e Manuela, filhos do técnico administrativo – Foto: Pablo Felippe – Coordcom/UFRR


Ao longo desse percurso, a maternidade e a carreira caminharam juntas. A professora destaca que os desafios da vida acadêmica muitas vezes extrapolam horários e exigem conciliar múltiplas responsabilidades. “O trabalho acadêmico, por ser diversificado em várias frentes de ação, tem uma espécie de demanda continuada que, não raro, transborda os dias úteis e os horários funcionais. Esse transbordamento pode impactar na maternidade e em muitos momentos contei com a compreensão dos colegas de trabalho, tive apoio familiar e, especialmente, na lida cotidiana, tive apoio de mulheres que ajudam mulheres. Essa combinação foi muito importante para a conciliação desses papéis”, explica Vângela.

Enquanto a mãe construía sua trajetória profissional em meio às diversas mudanças da vida, João Fellipe crescia acompanhando de perto o cotidiano universitário. Hoje, aos 31 anos, formado em Direito pela própria UFRR, advogado e recém-ingresso como servidor técnico-administrativo da instituição, ele olha para a universidade também como parte da própria formação afetiva. “Minha mãe veio do Ceará ainda grávida de mim, então eu costumo dizer que já migrei para Roraima ainda na barriga dela. Tenho muito orgulho dessa conexão e de ter construído minha vida aqui. Amo essa terra e tudo que ela representa para mim”, afirma.

João conta que muitas das suas lembranças de infância estão diretamente ligadas aos espaços da Universidade. “A UFRR era praticamente minha segunda casa durante a infância. Tenho lembranças muito vivas de acompanhar o crescimento estrutural da Universidade junto com o meu próprio crescimento. Lembro de brincar com meu irmão na praça do Bloco I, correr pelos corredores curvados daqueles prédios mais antigos, observar as obras de arte espalhadas pelas paredes. Tudo isso faz parte da minha memória afetiva. Quando chegou o momento do vestibular, eu já sentia que aquele era o meu lugar. Era uma Universidade que já fazia parte da minha história muito antes da vida acadêmica”, relembra.

Segundo João Fellipe, crescer acompanhando a trajetória da mãe influenciou profundamente sua visão de mundo. Mais do que a dimensão profissional, ele destaca os valores humanos aprendidos dentro de casa. “Acho que fui privilegiado nesse sentido. Recebi uma criação com muito carinho, diálogo e reflexão sobre o mundo. Isso construiu em mim uma visão mais crítica, humanista e sensível das pessoas e sociedade. Como filho, acompanhei toda a trajetória profissional dela e hoje, olhando como pai, consigo compreender ainda mais o seu esforço. Mesmo chegando cansada do trabalho, fazia o possível para estar presente na nossa criação. Passei a entender melhor esse equilíbrio difícil entre maternidade, trabalho e construção profissional”, analisa.

Com a aprovação de João em concurso da UFRR, agora, mãe e filho passaram a compartilhar também o mesmo ambiente profissional. Para Vângela, a chegada do filho como servidor da instituição possui um significado que mistura emoção, memória e continuidade. “Me emociona, pois essa conquista do João Fellipe reacende na memória os processos da minha trajetória pessoal, da qual ele, já naquele começo da caminhada, foi parte decisiva. Também reacende lembranças do desenvolvimento institucional da UFRR. A gente revisita, e nesse movimento, há pessoas, histórias, lutas, realizações, lacunas, transformações. Cabe muita coisa nesse intervalo de tempo”, afirma.

Vângela destaca o pertencimento e as mudanças do tempo também dentro de sua própria família, agora com a chegada dos netos. “De repente, o presente nos atualiza e nos envolve com outras vozes infantis: ‘Que lugar é esse vovó?’. Respondo ao estacionar o carro na lateral do Bloco 1: ‘Aqui é a Universidade, o local de trabalho da vovó e do papai de vocês’. Assim, naquele diálogo curto, a UFRR é sentido concreto, é território afetivo que comporta a nossa história, mas também é lugar onde cabem muitas outras gerações curiosas, muitos outros saberes”, reflete.



João Fellipe afirma que sua chegada à universidade é como uma oportunidade de contribuir com conhecimentos adquiridos nesses anos por meio de sua mãe. “É um significado muito especial. Muito do que aprendi sobre convivência, responsabilidade e cuidado com as pessoas veio observando ela. Pretendo contribuir com os conhecimentos técnicos e para um ambiente de trabalho humano, leve e acolhedor. Durante muitos anos, encontrei ex-alunos e pessoas que trabalharam com minha mãe falando com muito carinho sobre ela, sobre a forma respeitosa e generosa como ela tratava as pessoas. Isso sempre me marcou muito. Espero conseguir construir esse mesmo tipo de relação. Quero deixar minha mãe orgulhosa não apenas no contexto profissional, mas no conjunto da minha trajetória, da forma como conduzo minha vida e trato as pessoas”, comenta.

Por fim, neste Dia das Mães, ambos refletem sobre cuidado, presença e memórias. Para Vângela, a maternidade permanece como uma experiência profundamente espiritual e afetiva. “É assim que me situo nessa data simultaneamente como filha (marcada pelo selo da saudade) e como mãe, honrada pelos meus. Eu me sinto espiritualmente agradecida e muito me alegra vê-lo [João Fellipe] construir seu caminho com compromisso e solicitude. Para mim essa é uma forma muito especial de homenagear existências e celebrar esse dia”, revela.

Já João Fellipe acredita que a data também convida à reflexão sobre como a sociedade valoriza o cuidado cotidiano dedicado às mães. “O Dia das Mães é uma data muito especial, mas também muito complexa. Existe um aspecto comercial, como em tantas outras datas, mas acredito que cada pessoa pode ressignificá-la da sua própria forma. Sobre a data, hoje eu penso muito sobre o cuidado. Não apenas celebrar, mas refletir: estamos cuidando bem das mães do Brasil? Estamos valorizando essas mulheres no cotidiano? Eu estou cuidando bem da minha mãe? E onde posso melhorar nisso? Depois que me tornei pai, passei a olhar ainda mais para essas questões. Acho que o mais importante é fortalecer os vínculos no dia a dia, e não apenas em uma data específica. E talvez seja isso que mais aprendi com ela: mãe é muito mais do que um título. É presença, cuidado, amor e acolhimento. É um estado de espírito. E acho que emanar isso para as pessoas é uma das coisas mais importantes que existem”, finaliza.