Publicado em: 16 de julho de 2025
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O Cine-INAN exibe, no dia 23 de julho, das 18h30 às 21h, o documentário “Eu sou neta dos antigos“, dirigido por Adriana Miranda, no auditório do Instituto de Antropologia da Universidade Federal de Roraima (INAN/UFRR). Após a sessão, haverá um debate sobre a obra, com a presença da protagonista Kelliane Wapichana, Tuxaua Geral do Movimento de Mulheres Indígenas de Roraima. O evento é gratuito, aberto ao público e oferece certificado de participação.

O documentário, que estreou em outubro de 2024 no 26º Festival Internacional de Cinema do Rio, integrou a mostra Première Brasil: O Estado das Coisas. Com 75 minutos de duração, Eu sou neta dos antigos acompanha a trajetória de Kelliane enquanto transporta sementes nativas de Boa Vista até a comunidade Pedra Preta, atravessando montanhas, florestas tropicais, savanas, rios e a extensa Terra Indígena Raposa Serra do Sol. A narrativa destaca seu papel como guardiã da natureza, comprometida com a preservação das sementes nativas e com a segurança alimentar dos povos originários. O longa tem classificação livre.

“Esse filme vem sendo exibido em diversos festivais de cinema no Brasil, mas é importante que ele também seja exibido em Roraima, local onde ele foi gravado”, afirma Pedro Andrade, colaborador do projeto Cine-INAN. Ele também ressalta a importância da sabedoria ancestral como ferramenta de enfrentamento à crise climática. “Na região Amazônica, em especial, temos visto um aumento das temperaturas e dos períodos de secas ao longo dos anos. E é por isso que esse filme é importante. Ele nos traz a sabedoria dos povos originários, que pode nos ajudar a encontrar formas de enfrentar essa emergência climática, a partir de soluções baseadas nos conhecimentos tradicionais.”

A presença de Kelliane na universidade é apontada como elemento central do evento. “Ela é a protagonista, a Tuxaua. Foi ela quem autorizou essa exibição. Em março, ela convidou professores da UFRR para assistir à estreia do filme durante a Assembleia do CIR, na comunidade Malacacheta”, relembra o professor Sandro Santos, coordenador-adjunto do Cine-INAN. “Agora, chegou a vez da comunidade acadêmica. É muito significativo que ele seja exibido na UFRR, pois os saberes indígenas estão na base de formação da antropologia enquanto campo de conhecimento acadêmico”.

Santos reforça a relevância de promover o encontro entre a academia e lideranças indígenas. Para ele, o cinema é um campo de produção de memória e difusão de conhecimento que pode colaborar com a manutenção das culturas originárias. “Kelliane vem nos contar sobre sua luta na preservação dos saberes indígenas que resistem às investidas dos carauá, no passado e no presente.”

A escolha do documentário também se alinha à curadoria do Cine-INAN, que prioriza obras produzidas ou protagonizadas por povos indígenas, ou com foco em temáticas como identidade, gênero, diversidade cultural e direitos humanos. “Buscamos como política editorial contribuir com o registro do cinema feito na/da Amazônia, seja com artigos, ensaios textuais/fotográficos ou relatos criativos em congressos e eventos da experiência do Cine-INAN na interseção entre Antropologia e Cinema na Amazônia”, explica a professora Madiana Rodrigues, coordenadora do projeto.

Segundo ela, a proposta do Cine-INAN é consolidar um espaço de diálogo entre a universidade e a comunidade externa, com debates após cada sessão. “Consideramos ser de grande relevância acadêmica o uso da tecnologia (audiovisual) como prática educativa e espaços de debate, para criar um diálogo entre o universo antropológico e outras áreas do conhecimento dentro das humanidades. Além disso, tal meio de ensino, é um importante aparato de promoção do conhecimento, capaz de despertar reflexões no acadêmico e não acadêmicos”.

Para Pedro Andrade, é preciso fortalecer esse tipo de iniciativa em tempos de urgência climática e fragilidade político-ambiental. “Como dizem os povos indígenas: o futuro é ancestral. Precisamos nos relembrar que nós somos parte da natureza. É por meio da valorização dos meios de vida dos povos tradicionais que vamos encontrar soluções para a crise ecológica”.

A sessão do dia 23 de julho é uma oportunidade para refletir sobre o papel da universidade na defesa dos territórios, da memória e da diversidade. E, sobretudo, para ouvir a voz de quem carrega, nas sementes, a resistência e o futuro. “É nossa obrigação, na universidade, colaborar e fomentar essas iniciativas que partem da juventude indígena e do movimento indígena organizado”, afirma Sandro Santos.