
Com o objetivo de promover o diálogo entre saberes acadêmicos e tradicionais, mas, sobretudo, valorizar as vozes, experiências e narrativas das mulheres indígenas, a Universidade Federal de Roraima (UFRR), por meio do Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena, realizará, no dia 30 de abril, a edição 2026 do evento Abril Indígena, alusivo ao Dia dos Povos Originários comemorado em 19 de abril. A programação ocorrerá no auditório do Programa de Pós-graduação em Sociedade e Fronteiras (PPGSOF), localizado no campus Paricarana.
Neste ano, o evento busca abrir um espaço de reflexão acerca das lutas dos povos indígenas, ao focar na temática “Do silêncio à resistência: mulheres contra a violência estrutural”. A programação ocorrerá no período da manhã e tarde com mesas-redondas, debate aberto ao público e apresentação cultural.
Conforme informações da organização, o evento busca reunir mulheres indígenas, lideranças, pesquisadoras, instituições públicas e convidadas que atuam na defesa dos direitos das mulheres e dos povos originários. Alguns dos representantes são do Conselho Indígena de Roraima (CIR), da Organização de Mulheres Indígenas (OMIRR), Associação dos Povos Indígenas (APIRR), Defensoria Pública do Estado de Roraima, além de representantes acadêmicos e do reitor da UFRR, José Geraldo Ticianeli.
Conforme a Diretora do Instituto Insikiran da UFRR, professora Ise de Goreth, o objetivo da temática deste ano é evidenciar as múltiplas formas de violência que atingem as mulheres indígenas. “A proposta é construir um espaço coletivo de troca, no qual diferentes perspectivas possam contribuir para a compreensão das violências estruturais e o fortalecimento de ações de enfrentamento dessas violências. Mas também queremos reconhecer o protagonismo histórico na construção de estratégias de resistência, cuidado e transformação social dessas mulheres”, afirma a professora.
A organização destaca que o Abril Indígena será um espaço de luta, memória e construção coletiva. “Com isso, o Instituto Insikiran e a UFRR reforçam seus compromissos com a justiça social, o respeito às diversidades e a promoção de uma universidade plural, inclusiva e comprometida com os povos indígenas”, destaca a diretora.
O protagonismo feminino e indígena é marca também na UFRR
O dia 19 de abril é uma data marcante para a formação do povo brasileiro, quando é celebrado o Dia dos Povos Originários. Criada nos anos 1940, a data destaca a diversidade cultural dos povos indígenas no Brasil e contribui para a preservação da sua história e cultura.
Na UFRR, a presença indígena é significativa, refletindo o fato de o estado possuir a quinta maior população indígena do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como forma de reunir diferentes perspectivas sobre a data, entrevistamos a professora dos cursos de Licenciatura Intercultural e de Gestão Territorial indígena da UFRR, Mariana Souza da Cunha, e acadêmica do curso de Gestão Territorial Indígena (GTI), Eliane Isabela Tomás da Silva, indígena do povo Wapichana.
Docente da UFRR desde 2007, a professora Mariana explica que o Abril indígena representa um avanço na luta dos povos indígenas, embora, ainda existam desafios importantes. “Mostramos avanços e retrocessos nas políticas públicas, na saúde, na educação, na preservação da cultura e, principalmente, na garantia do nosso território. Uma das principais demandas ainda está relacionada à permanência do nosso povo em suas respectivas comunidades. Não conseguimos avançar no sentido de promover renda e fixar, principalmente, os jovens nas comunidades indígenas”, analisa a professora.
A estudante Eliane Tomás também destaca o período como um momento de reflexão e mobilização. “É fundamental para dar visibilidade às lutas históricas dos povos originários. É um mês de reflexão, onde os povos indígenas da região Amazônica debatem sobre direitos e territórios, fortalecem a identidade, promovem debates e cobram ações do poder público. Ainda há muitas demandas não atendidas, como a proteção efetiva dos territórios, acesso à saúde de qualidade, educação intercultural fortalecida, violência contra lideranças indígenas, combate às invasões, entre outros”, afirma.
Eliane ingressou no curso em 2026 pelo processo seletivo indígena. Além de estudante, atua como artesã, comunicadora e participa de diversos outros projetos. Ela explica que o acesso ao ensino superior representa uma conquista coletiva. “Hoje somos o sonho de muitas lideranças que lutaram para garantir o ensino superior aos povos indígenas de Roraima. A nossa contribuição é dar retorno para atuar nas nossas regiões e territórios indígenas, pela defesa desses territórios contribuindo com projetos sustentáveis, fortalecimento cultural e garantia de direitos”, afirma.

Lembrando sobre a temática do evento Abril Indígena da UFRR, a estudante Eliane Tomás destaca que a vivência de uma mulher indígena acaba sendo de dupla vulnerabilidade. “Por sermos mulheres e pertencermos a povos historicamente marginalizados enfrentamos diferentes formas de violências, que não são apenas físicas, mas também culturais, sociais e institucionais. Muitas ainda lidam com o preconceito, invisibilidade e dificuldade de acesso aos direitos básicos. Estar na Universidade nos permite dar visibilidade a essas pautas, ocupar espaços e buscar mudanças. Discutir violência de gênero dentro das causas indígenas é essencial, para garantir mais proteção, respeito e oportunidades”, pontua Eliane.
Mariana e Eliane destacam a importância da educação na transformação social e da UFRR e de outras instituições públicas nesse processo. “Seja na formação ou capacitação, levando informações para mulheres terem autonomia econômica, social, como forma de empoderamento na luta contra a violência de gênero”, afirma Mariana.
Eliane complementa destacando o papel importante das universidades públicas. “Atuam na formação crítica dos profissionais para que entendam a diversidade cultural, contribuem na produção de conhecimento que ajudam na criação de políticas públicas mais eficazes. Outro ponto fundamental é promover espaços de debate e visibilidade, como o Abril Indígena”, conta a acadêmica.
Para o futuro, ambas defendem mais avanços na garantia de direitos e na valorização dos povos indígenas. Mariana destaca a importância da presença feminina em espaços de liderança. “Que os direitos de fato sejam efetivados e possamos ter mais mulheres assumindo espaços ainda dominados por homens, como nas lideranças da comunidade e na própria UFRR”, revela.

Eliane reforça a necessidade de outras mudanças estruturais que sejam fundamentais para um Brasil com mais respeito, justiça e compromisso real com as pautas indígenas e enfrentamento da violência de gênero. “Espero avanços na proteção efetiva dos territórios indígenas, com fiscalização mais rigorosa contra invasões, garimpo ilegal e desmatamento, além de melhorias na saúde, educação e maior investimento na permanência de estudantes indígenas nas universidades. Também é fundamental buscarmos a maior participação indígena nos espaços de decisão para que os próprios povos indígenas sejam protagonistas de suas lutas”, finaliza a estudante.
Confira a programação do Abril Indígena da UFRR
30 de Abril – Auditório do PPGSOF
Tema: Do Silêncio à Resistência: mulheres contra a violência estrutural
08h às 8h20 – Credenciamento e acolhimento;
08h30 – Abertura institucional;
09h – Mesa Redonda (Parte I): “Do silêncio à denúncia: desafios no acesso à justiça e às políticas públicas”
11h – DEBATE – Debate aberto com o público;
12h – Encerramento do turno da manhã
14h30 – Mesa Redonda II: “Violências e resistências: mulheres indígenas e os desafios da permanência universitária”
16h45 às 17h – Encerramento