
A Universidade Federal de Roraima (UFRR) vem promovendo e/ou apoiando uma série de atividades alusivas ao 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Uma dessas atividades teve início muito antes do mês de novembro iniciar e se chama projeto “Memórias e Saberes: Educação Antirracista em Movimento”. As ações relacionadas ao projeto começaram ainda no mês de outubro, sendo divididas em três ciclos que buscam refletir sobre a educação antirracista e a implementação da Lei nº 10.639/03, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas brasileiras.
A programação do primeiro ciclo chamado “Ciclo de Sensibilização, Letramento e Repertório” contou com palestras virtuais e presenciais (Palestras estão disponíveis no canal “Auditório Virtual da UFRR” no YouTube), o segundo ciclo denominado “Pesquisa e Produção” ocorreu no dia 19 e o último ciclo, intitulado “Culminância”, vai ocorrer no dia 28 de novembro no Colégio de Aplicação da UFRR.
Este ciclo final reunirá professores e estudantes que apresentarão trabalhos relativos à educação antirracista, sendo que o momento terá também contribuições e participações de profissionais da cultura e comunidade escolar. Na programação estarão performances e experiências cênicas, apresentações de dança com ritmos de matriz afro-brasileira, como o grupo de dança Afoxé, além de oficinas de trança, boi-bumbá, carimbó, entre outros.
Para o professor e presidente da comissão organizadora da ação, Josias Marinho, as atividades procuram, sobretudo, promover facilitações e educação sobre o tema da Consciência Negra. “Estou participando e aprendendo, contribuindo com o movimento negro e com a educação desde a minha graduação lá na Universidade de Belas Artes da UFMG. Temos que ter essa postura de entender que não é somente uma data comemorativa, mas ela é importante, porque marca e dá visão, celebra um herói negro importante para uma revolta, a luta contra a escravidão. As pessoas precisam entender a motivação da Lei 10.579, da importância da Lei de Cotas, das bancas de heteroidentificação. Somos uma instituição de educação e o que eu vejo hoje me deixa muito satisfeito. É um sinal de que para o ano que vem, para os próximos anos, nós estaremos cada vez mais fortalecendo a região Norte”, afirma o professor.
O docente ainda destacou a participação no evento dos alunos intercambistas do Gabão e da República do Congo, que estão na Universidade por meio do Programa de Estudantes-Convênio (PEC-G), do Governo brasileiro. “Tem alguns deles que falam mais de três idiomas, que são de países que estão lutando para retirar, como língua oficial, a língua do colonizador. Essas são informações importantes para nossos estudantes, de uma vivência muito importante no contexto da educação”, ressalta.
Neste ano de 2025, o professor Josias Marinho também é o personagem da campanha da Consciência Negra da UFRR. Acompanhe a matéria e saiba mais sobre a trajetória do docente.
Ações e parcerias

Entre os dias 17 a 19 de novembro ocorreu a XX Semana de Letras da UFRR em conjunto com IV Seminário de Africanidades e Minorias Sociais. O evento com o tema “Por uma educação Antirracista” ocorreu no Bloco I do Centro de Comunicação, Letras e Artes (CCLA) localizado no campus Paricarana.
A programação contou com palestras, apresentações orais, mesas-redondas, minicursos, oficinas e atividades culturais debatendo sobre as práticas educativas relacionadas a equidade racial e contemplando também sobre as temáticas indígenas.
Durante o período de 12 a 14 de novembro aconteceu no auditório do Centro de Ciências Humanas (CCH), o VI Colóquio de Relações Étnico Raciais e o mês da Consciência Negra, além do II Seminário Negra Geografia. O evento ocorreu em uma parceria entre os cursos de História e Geografia com uma programação que reuniu mesas de debate, exibição de filme, documentário, oficinas com alunos da educação básica da rede pública e grupos de trabalhos.
A professora e uma das organizadoras do evento, Monalisa Pavonne Oliveira, destaca a valorização de conhecimentos e saberes. “O colóquio surgiu como iniciativa do grupo de pesquisa História Social e Ensino de História. Nossa proposta é inserir, divulgar e compartilhar diferentes tipos de saberes prezando por valorizar os conhecimentos científicos e também os saberes ancestrais produzidos em Roraima”, comenta.
Para saber mais informações sobre o evento e também sobre o trabalho do grupo de pesquisa, basta acessar o perfil do grupo no Instagram.
Ainda seguindo a temática, a professora do curso de História, Mariana Cunha Pereira, foi convidada para participar do primeiro Festival Literário da Igualdade Racial (FLIIR) que ocorre entre os dias 20 e 23 de novembro. O evento ocorre na Central única das Favelas (CUFA), localizado na cidade de Madureira, Rio de Janeiro.
Com o tema “Entrelaçando Letras e Lutas: Escrevivências Pan-Africanas e Igualdade Racial”, a edição de abertura promove a valorização da cultura afro-brasileira homenageando três intelectuais negras: as irmãs Jeanne e Paulette Nardal e a escritora Conceição Evaristo.
Para a professora, a participação consolida a presença de Roraima em debates nacionais importantes. “Consolida a presença de Roraima na escuta, atenção, criação de network junto as escritoras e ativistas de cada estado brasileiro, para mim em especial o encontro com as ativistas e escritoras da região Norte, pois cada estado terá pelo menos uma integrante. É parte do que defendo como Política de Ação Afirmativa que esta universidade deve implementar, é também construir outros dispositivos institucionais que combatam o racismo institucional, que ajude os estudantes a permanecerem de modo respeitoso dentro do sistema de ensino superior”, destaca ainda.
A feira é aberta ao público e o FLIIR é financiado pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além do Ministério da Ciência e Tecnologia e Ministério da Igualdade Racial por meio da Chamada CNPq/MIR nº 27/2024.
Pereira também foi uma das organizadoras do “Ciclo de Palestras e Seminário sobre Políticas de Ação Afirmativa”, que realizou atividades formativas entre os meses de outubro e novembro com o objetivo de trazer a comunidade acadêmica da UFRR e a sociedade civil os embasamentos teóricos e políticos sobre a legislação que referendam as políticas de cotas tanto para o âmbito do ingresso no ensino superior quanto no serviço público.
Já na última terça (18), o Malocão Cultural da UFRR recebeu o evento de lançamento do filme “Iê é de Roraima, Camará”. A ação integra as atividades do “Mês da Consciência Negra do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Segundo o professor da UFRR, Márcio Akira, que também é coordenador do Centro de Capoeira da instituição, a obra “é muito importante na parte de preservação e do registro da história da capoeira no extremo norte do Brasil. Então, esse é um filme produzido pela Salvaguarda Capoeira que são representantes dos grupos, escolas, instituições e projetos de capoeira. A Salvaguarda é uma política do Estado que é coordenada pelo IPHAN para esse registro de preservação e promoção da capoeira em cada estado brasileiro”, explica o professor.
Histórias que humanizam corpos negros

“Eu sou quilombola, do interior de Rondônia”, apresenta-se Josias Marinho, professor efetivo de Artes Visuais do Colégio de Aplicação e diretor da Editora da UFRR, presidente da comissão organizadora do “Memórias e Saberes: Educação Antirracista em Movimento” e personagem da campanha da Consciência Negra da UFRR 2025. Nascido e criado na Comunidade Remanescente de Quilombos Forte Príncipe da Beira, na fronteira entre o Estado de Rondônia (RO) e a Bolívia, Josias é filho de costureira, “daquelas que olha o teu corpo e te fala a quantidade de tecido que precisa”. O pai faleceu quando ele tinha nove meses de vida.
Doutor em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestre em Letras pela UFRR, bacharel em Desenho e licenciado em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes da UFMG, Josias era aficionado pelos livros desde criança. “Eu achava o livro muito curioso, tinha uma fixação. Eu ficava pensando como aquilo era feito. Minha casa tinha um quintal grandão, então eu brincava e desenhava o livro”, diz.
Ao escolher a arte e a educação como carreira, Josias conta que “decepcionou” os oito irmãos, a maioria militares. “Eu falei ‘eu tenho facilidade na arte, eu gosto disso’. Foi um misto de orgulho e decepção, de medo pelo meu futuro como artista e professor”, conta.
Na graduação, ele era um dos únicos de pele preta retinta numa turma de 60 acadêmicos. “Uma professora falou que o curso era para quem tinha dinheiro, para comprar material e viajar para a Europa para acessar a ‘verdadeira arte’. Essa fala foi marcante e resultou na saída de uns três colegas. Um deles era negro”, recorda.
Foi nesse período que Josias se aproximou do movimento negro. “Eu aprendi muita coisa, participei de um grupo chamado N’zinga, participei de ações não só em Belo Horizonte, mas em Salvador e no Rio de Janeiro”, lembra. “Integrei também o projeto A Cor da Cultura III, trabalhando com professores que chegavam lá forçados e se descobriam racistas. Era sempre um momento de escuta, de choro, de acolhida e de construção de ações”.
Como artista, adotou o nome Josias Marinho Casadecaba, uma raiz nortista, e conta e ilustra histórias que humanizam os corpos negros, “dando nome e história de vida a esses que sofrem, que amam, que sangram e que brincam”. “Eu me construí como artista, ilustrador e estou há quase 20 anos nisso, com publicação de literatura infantil”, relata.
Dentre as principais obras, ele destaca “O príncipe da beira”, em que revisita memórias da infância e conta a relação de um menino com o rio que banha sua cidade; “Benedito” é a história de um menino que investiga a batida do tambor do Congado, uma manifestação cultural e religiosa afro-brasileira; “Francisquinha” traz uma reflexão sobre o possível impacto das mídas na infância e “Bateção” celebra a cultura ribeirinha da região Norte.
Além das próprias publicações, Josias planeja fortalecer a produção de livros ilustrados na região Norte. “O meu objetivo é oferecer possibilidades para escritores e escritoras daqui. Minha vontade é oferecer um curso de formação para quem tem essa vontade de ser ilustrador”, prospecta.
Texto Marcos Martins Marques e Vanessa Vieira em colaboração com a Coordcom/UFRR