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Universidade Federal de Roraima

Texto da Semana - 02/06/2020 - Prof. Dr. Marcelo Henklain

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DE QUE OUTRAS FORMAS A PSICOLOGIA PODERIA CONTRIBUIR PARA LIDARMOS COM A COVID-19?

Prof. Dr. Marcelo Henklain

Curso de Psicologia da UFRR

 

          Uma das afirmações mais repetidas nos cursos de Psicologia é a de que psicólogos não atuam apenas com o sofrimento humano. Considerando essa tese, fiquei pensando se existem outras formas pelas quais psicólogos poderiam ajudar a nossa sociedade a lidar com a COVID-19, além daquelas relacionadas ao manejo do sofrimento humano, resultante de condições como a perda de entes queridos e o distanciamento físico. Tentarei apresentar um breve indicativo de resposta a essa questão sugerindo a leitura de teóricos contemporâneos.
          O primeiro passo da resposta é entender o que a Psicologia estuda. Segundo documento para a orientação de jovens interessados em cursar psicologia, desenvolvido pela Associação Psicológica Americana (APA), a Psicologia é uma ciência que estuda a intersecção de duas relações críticas: (a) uma entre o funcionamento do cérebro e o comportamento; (b) e outra entre o ambiente e o comportamento. Note que não há nada nessa definição que limite a Psicologia a apenas um contexto profissional ou fenômeno psicológico específico. A rigor, em qualquer contexto no qual processos como cognições, sentimentos e condutas humanas sejam relevantes, a Psicologia poderia oferecer contribuições.
          Nessa perspectiva, descobrir mais possibilidades de contribuição da Psicologia sobre como lidar com a COVID-19 parece depender da nossa capacidade de identificar necessidades sociais. É lógico que as pessoas estão em sofrimento. Essa é uma necessidade inquestionável e prioritária. Mas existiriam outras necessidades? A resposta é afirmativa e vou apontar aqui apenas um exemplo para estimular a sua curiosidade: psicólogos podem auxiliar na capacitação de pessoas para o manejo adequado de máscaras descartáveis, cujo uso tem sido indicado como meio eficaz para reduzir a transmissão da COVID-19 (Lima et al., 2020).
          A pergunta que surge, então, é o que necessitamos para capacitar alguém a apresentar um novo comportamento. Basicamente, precisamos articular quatro elementos:
          1) Clareza e precisão sobre o que pretendemos ensinar. Isso requer mais do que afirmar que desejamos “aumentar em X% a frequência do comportamento de manejo adequado de máscaras descartáveis”. É preciso saber quais habilidades mais específicas compõem a habilidade mais geral de manejar máscara descartável adequadamente. Do contrário, ficamos apenas com uma noção genérica e insuficiente daquilo que pretendemos ensinar;
          2) Medida inicial do que o aprendiz já é capaz de fazer antes de ter sido ensinado. Pode acontecer de que ele já saiba o que queremos ensinar. Além disso, sem uma medida inicial, não poderemos afirmar que foi o nosso procedimento de ensino o responsável por uma eventual mudança de repertório do aprendiz;
         3) Condições para promover a aquisição ou aperfeiçoamento das habilidades que pretendemos ensinar, que sejam compatíveis com essa habilidade;
        4) Avaliação sobre se a capacitação realizada foi de fato eficaz, ou seja, se as habilidades foram adquiridas ou aperfeiçoadas conforme esperávamos. Esse ponto é crucial. Precisamos avaliar de modo preciso e confiável se a intervenção que fizemos produziu os efeitos almejados, pois em uma atuação profissional orientada pela Ciência e pela Ética, boas intenções ou achismos são insuficientes.
          Recentemente, fui apresentado a uma sequência de três textos que evidenciam com muita qualidade a articulação desses quatro elementos aplicados ao manejo adequado de máscaras descartáveis. Esses textos foram assinados por Aline Archer, com graduação e doutorado em Psicologia pela UFSC, e Geovane Corrêa, formado em Economia e com doutorado em Psicologia pela UFSC. Os textos são de uma clareza e consistência teórica impecáveis. Além disso, o último texto da série é surpreendente: no lugar de apenas falar sobre como as coisas devem ser, os autores vão a campo testar o que propõem, e realizam um breve experimento que demonstra a eficácia do ensino que realizaram. Essa sequência de textos é uma das boas demonstrações que li de como a Psicologia, no meu entendimento, deveria ser: clara, parcimoniosa, teoricamente consistente, baseada em evidências e eficaz! Está feito o convite para que você conheça esses autores e sua valiosa contribuição para a nossa área. Esses textos estão disponíveis no LinkedIn da empresa de consultoria desses dois autores < https://bit.ly/3coNl2S >. Você pode utilizar os links a seguir para ir direto aos textos:
Texto 1: Como a Ciência do Comportamento Humano pode ajudar na prevenção da Covid-19? < https://bit.ly/2MkXdQx >
Texto 2: Identificando comportamentos profissionais de valor para a obtenção de resultados significativos < https://bit.ly/3eK9tX7 >
Texto 3: Avaliando a eficácia de descrições escritas de atividades < https://bit.ly/304gP3H >

          Pode ser necessário realizar cadastro e/ou login no LinkedIn para acessar o material. Boa leitura!

 

Referências

American Psychological Association. (2011). Careers in Psychology. Washington: APA. Recuperado de: https://www.apa.org/careers/resources/guides/careers.pdf

Lima, A. et al. (2020). Eficácia da máscara facial (TNT) na população para prevenção de infecções por coronavírus: Revisão sistemática. Ciência e Saúde Coletiva, preprint. doi: 10.1590/SciELOPreprints.413