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Universidade Federal de Roraima

Texto da Semana - 16/06/20 - Profa. Dra Cláudia Sato

 

 

 

 

 

 

 

 

MEDICALIZAÇÃO - CONCEITO

Profa. Dra. Claudia Cristina Sato
Curso de Psicologia - Universidade Federal de Roraima

 

          Eu estava conversando com uma amiga essa semana e citei os estudos de medicalização. Ao ouvir o termo ela falou algo do tipo “falar sobre medicamentos” e claramente, quando falamos de medicalização, a primeira coisa que nos vem à mente é medicamentos. É quase como óbvio que medicalização sugira super medicar, Freitas e Amarante (2017) dizem que:

À primeira vista, medicalizar sugere medicar, quer dizer, “cuidar(-se) por meio de medicamentos”, ou também “exercer a medicina”. Contudo, como teremos oportunidade de rever ao longo do livro, na verdade esse fenômeno moderno chamado medicalização é polissêmico. Em comum, configura-se como o processo de transformar experiências consideradas indesejáveis ou perturbadoras em objetos da saúde, permitindo a transposição do que originalmente é da ordem do social, moral ou político para os domínios da ordem médica e práticas afins."


          Por conta de organização, esse texto vai se referir exclusivamente ao conceito de medicalização, desconsiderando os direcionamentos como por exemplo medicalização de gênero ou saúde mental, mas apenas para compreender a definição e o que está por traz dela.
          Para Conrad (2007), “Medicalização descreve um processo pelo qual problemas não médicos se definem e são tratados como problemas médicos, geralmente em termos de doenças e desordens” .O que corrobora com a definição de Freitas e Amarante e partem de um entendimento de medicalização a partir de um conjunto de construções sociais ligadas a saúde. Ou seja, podemos dizer que medicalização está associada tanto ao processo de cuidar via medicamento, como também pelo fato de incluir na esfera da medicina aspectos que concernem experiências da vida cotidiana. Para se ter uma ideia, Conrad (2007) reforça com dados sobre o gasto com saúde da população americana. Na década de 70, o consumo médio americano com saúde foi de 4,3 % do PIB, enquanto 2006 essa proporção era de 16%. Na saúde mental, o número de critérios diagnósticos saltou de 106 em 1952 para 297 em 1994. Apesar disso, nem por isso a população está mais sadia.
          Grande parte dos estudos sobre medicalização se situam dentro do conjunto teórico de construcionismo social (CONRAD, 2007, BARKER, 2013), portanto compreende que muitas das ideias que parecem se referir a um fenômeno óbvio e natural, na verdade são fatores construídos socialmente. As discussões sobre medicalização tiveram início entre as décadas de 60 e 70, pois após a segunda guerra mundial a medicina ganhou um espaço antes não visto em função do desenvolvimento científico e medicamentoso.
          O argumento sobre medicalização dentro da sociologia é o de discutir os critérios que levam determinadas questões a serem consideradas doenças ou não. Por exemplo, pouco se discute sobre violência doméstica dentro da questão médica, mas a tensão pré-menstrual foi medicalizada, como se apenas as mulheres fossem “transtornadas” por apresentarem alguma alteração de humor, trazendo para o corpo feminino a possibilidade de intervenção médica. Outros comportamentos antes considerados imorais e pecaminosos passaram a ser tratados a partir de transtornos. Atualmente, o grande exemplo são as discussões em torno do atual presidente da República, cujo comportamento é alvo de discussões sobre sanidade mental, quando apresenta um comportamento não necessariamente correlato a transtornos.
          Abrangem também as discussões sobre a necessidade de compreensão de transtornos e doenças que ocorrem em determinadas localidades e outras não, como por exemplo a tensão pré-menstrual e koro. Além de outras que já desapareceram ou se manifestam de forma distinta atualmente, como histeria e neurastenia (BARKER, 2013).
          Além disso, a medicalização, incentivada por uma cultura individualista, foca como fonte do problema o indivíduo ao invés do ambiente social (CONRAD, 2007) exigindo uma intervenção médica individual ao invés de solução coletiva e social. Um exemplo disso pode ser observado nas discussões sobre suicídio, e da naturalidade em que se repetem diariamente, sejam médicos e psicólogos, que a depressão será a doença do século, desconsiderando as causas que levam a depressão e suicídio além da ordem sintomatológica.
          A premissa dos estudos sobre medicalização é compreender que este é processual, acontece a partir de construções sociais e que existem elementos que por mais que sejam considerados inicialmente óbvios, do ponto de vista da intervenção médica e biológica existem elementos a serem discutidos por parte da sociologia médica, que buscam compreender por que e como questões relacionadas a saúde aparecem ou persistem e quais os critérios utilizados nessas classificações. Além de questionar e criticar o conceito de naturalidade atribuídas as classificações médicas.


Referências

BARKER, Kristin, The social construction of illness, In: BIRD, Chloe et al. Handbook of Medical Sociology, 6th Edition. Vanderbilt University Press. Nashville, 2013.
CONRAD, Peter. The medicalization of society: on the transformation of human conditions into treatable disorders. The Johns Hopkins University Press, Maryland, 2007.
FREITAS, Fernando; AMARANTE, Paulo, Medicalização em Psiquiatria [online]. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2017.