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Pesquisadores do PROCAD relatam situação de risco Baixo Rio Branco

Publicado: Quarta, 22 de Maio de 2019, 10h25 | Última atualização em Quinta, 06 de Junho de 2019, 18h35

Uma equipe de pesquisadores e profissionais de comunicação esteve na expedição organizada pela Universidade Federal de Roraima (UFRR), composta por professores da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Universidade Federal do Ceará (UFC) e apoio da Universidade de São Paulo (USP), desenvolvendo atividades ligadas ao projeto aprovado junto ao Programa Nacional de Cooperação Acadêmica na Amazônia (PROCAD), vinculado à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), com o apoio da Reitoria da UFRR.

De acordo com o coordenador geral do projeto, professor Antonio Veras, o objetivo é analisar o ordenamento e gestão territorial, assim como os aspectos socioambientais e socioeconômicos das comunidades ribeirinhas do Baixo Rio Branco. Além da aplicação de métodos científicos, observações, anotações e entrevistas, a pesquisa utilizou tecnologias e ferramentas para produção de cartografias na identificação de cosmografias, assim como registro fotográfico e audiovisual. Uma vivência fluvial que promete render bons resultados, considerando o desconhecimento que o próprio estado de Roraima e o Brasil têm das realidades destes povos ribeirinhos do ‘sul do extremo norte brasileiro’, mas que a partir deste projeto ganham visibilidade midiática e acadêmica.

Após percorrer cerca de 140 quilômetros de Boa Vista à Caracaraí (RR), a expedição navegou por mais de mil quilômetros saindo de Vista Alegre, atingindo a foz do Rio Branco e indo além, navegando pelos rios Xeurini, Jufari e uma série de canais e furos, com uma parada na vila de Moura (AM), subindo em seguida pelo rio Jauaperi, onde ficam localizadas várias comunidades ribeirinhas, vinculadas ao município de Caracaraí (RR). 

A bacia hidrográfica do estado de Roraima pertence à bacia amazônica, com 204.640 km2 de extensão, incluindo os rios Uraricoera, Catrimani, Mucajai, Tacutu e Anauá. Deste quantitativo, o Rio Branco possui 45.530 km2. Nesta região, não há estradas. O acesso às comunidades Baixo Rio Branco que abrange os municípios de Rorainópolis e Caracaraí é feito por via fluvial. A exceção ocorre em Santa Maria do Boiaçu, que também pode ser acessada por meio aéreo. Nas demais, o rio é a única forma de deslocamento entre as localidades. Uma comunicação feita pelas águas. 

O coordenador regional do PROCAD, professor e geógrafo, Antonio Tolrino Veras (UFRR), que também coordenou a primeira expedição ao Baixo rio Branco em outubro do ano passado (http://ufrr.br/ultimas-noticias/4911-baixo-rio-branco-visita-de-campo-da-ufrr-identifica-comunidades-abandonadas-e-propoe-projetos-de-desenvolvimento-local), explica que os pesquisadores estão trabalhando com o ordenamento territorial e a identificação das potencialidades e vulnerabilidades das comunidades. “As comunidades analisadas têm especificidades comerciais, sociais, ambientais, culturais e religiosas. Vamos traçar uma percepção destas comunidades em relatórios técnicos e sugerir ações que possam em um futuro próximo subsidiar políticas públicas”, Os produtos gerados a partir da percepção destas comunidades serão apresentados em relatórios técnicos, de modo a sugerir ações que possam em um futuro próximo subsidiar políticas públicas, afirmou.

Professor Veras explica que tratar do ordenamento territorial é desvelar o  uso, apropriação e significação destes territórios. “Este ordenamento tem que considerar, na essência, as relações sociais destas comunidades no espaço que elas ocupam. Ao longo da expedição verificou-se que muitas comunidades estão em conflitos em relação ao uso do território”, alertou o coordenador, que é doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP).

Ele diz que, muitas vezes, a apropriação do território se dá de fora para dentro. “Na verdade, esse uso e apropriação têm que ocorrer de dentro para fora. A comunidade é quem tem que ter uma consciência, uma organização do seu território. Precisa melhor aproveitar seu espaço do ponto de vista de sua gestão”, pontuou.

Segundo Veras, as comunidades podem gerir melhor seus espaços para não serem penalizadas ou exploradas e, na pior das hipóteses, não desaparecerem, o que seria uma espécie de ‘comunicídio’, a morte das comunidades. “Muitas destas comunidades estão inseridas dentro de reservas naturais, que é uma questão bastante técnica e tem que ser pensada dentro deste processo de ordenamento territorial”, acrescentou.

Isolamento: Xixuaú, a comunidade mais distante, localizada no rio Jauaperi (RR), está sem energia há dois meses e necessita de maior atenção do poder público.

 


A expedição termina no dia 30 de maio e visitará as comunidades de Vista Alegre, Santa Maria do Boaiçu, Santa Maria Velha, Remanso, Floresta, Itaquera, Sumaúma, Xixuau, Dona Cota, São Pedro, Sacaí, Canauiní, Lago Grande, Terra preta, Cachoeirinha, Caicubí e Panacarica.

O professor Antonio Veras, do Instituto de Geociências (IGEO/UFRR), explica que o projeto está traçando um diagnóstico da realidade socioambiental e socioeconômica das comunidades ribeirinhas do Baixo rio Branco.

"Alguns aspectos já foram observados e catalogados. A princípio, podemos afirmar que o baixo rio Branco está ausente das políticas públicas aqui do nosso estado. Carece de atenção à saúde, à educação e ainda tem muito o que fazer nesta região. Com este trabalho que será desenvolvido ao longo de quatro anos, pretendemos traçar um modelo de gestão e ordenamento territorial", destacou professor Veras.


 
Para o professor Giovanni Seabra, do Programa de pós-graduação de Geografia (PPGEO/UFRR) o baixo rio Branco é a região dos esquecidos. "Eles mesmo relatam isso. Esquecidos  das políticas públicas. O que ouvimos é que este esquecimento se dá porque, mesmo reunidos, representam poucos votos junto ao público votante do estado. O fato de não serem representativos em termos quantitativos, eles jazem no abandono das políticas públicas. A boa notícia é que mesmo esquecidos, eles encontram formas alternativas de desenvolvimento local. Nós vemos as famílias reunidas em casas de farinha transformando a macaxeira em farinha para subsistência e alguma desta produção é destinada a comercialização. Assim como é na farinha, é na castanha, nos pescados e na produção do açaí. De maneira que eles têm aqui os micro ciclos econômicos que vêm a suprir a deficiente ação das políticas públicas", afirmou Seabra. 

PROCAD - É um projeto de cooperação em ensino e pesquisa que reúne três universidades públicas federais, sendo a Universidade Federal de Roraima – UFRR (proponente), a Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

O projeto busca estimular a formação e qualificação de quadros pós-graduados, mobilidade docente e discente e a ampliação do conhecimento científico sobre as estratégias de Ordenamento Territorial em Comunidades de Interesse Socioambiental na Amazônia.

Outro objetivo é identificar e analisar as pequenas cidades e comunidades (comunidades tradicionais, indígenas e ribeirinhos) sobre influências de grandes obras de infraestrutura de modo a identificar os conflitos sócio territorial que se desenrolam nas dimensões, regionais e ambientais nos estados envolvidos, no contexto da Amazônia, de modo a demostrar áreas prioritárias para a ação da gestão pública.

Confira no link o vídeo documentário produzido sobre a primeira expedição na fanpage da Rádio e TV Universitária.

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