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Entrevista: Renato Athias - "Estudos devem centralizar de fato no interesse dos indígenas tendo em vista a sua reprodução física e cultural"

Publicado: Quarta, 11 de Abril de 2018, 12h30 | Última atualização em Sábado, 14 de Abril de 2018, 02h32

Renato Athias é professor doutor do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Possui graduação em filosofia, mestrado e doutorado em Etnologia, ambos pela Universidade de Paris X, Naterre e pós-doutorado pela Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales, França.

Atua com temáticas sobre saúde indígena, antropologia visual com projetos de pesquisas entre os índios de Pernambuco e no Alto Rio Negro Amazonas e é membro do Laboratório de Antropologia Visual do Núcleo Imagem e Som & Ciências Humanas da UFPE.

Nesta entrevista feita pela Coordenadoria de Comunicação da UFRR, professor Renato Athias falou sobre a importância do Seminário sobre Alimentação Sustentável entre os Povos Indígenas de Roraima e seus desdobramentos, evento realizado na Comunidade Indígena Malacacheta em que ele participou na condição de convidado pelo Programa de Doutorado Interinstitucional (UFRR e UFPE). Confira a entrevista. 

 

Coordcom - A comunidade indígena da Malacacheta, em Roraima, recebeu em março deste ano, o Seminário sobre Alimentação Sustentável entre os Povos Indígenas de Roraima, com o tema: "Saberes e práticas alimentares", qual a sua impressão do evento, considerando os desafios e oportunidades?

Renato Athias: Os moradores da Malacacheta, bem especificamente o tuxaua Clóvis Ambrósio, provocaram esse evento. Houve uma participação geral e, sobretudo, bastante interessada dos moradores da Malacacheta. Na realidade, foram as preocupações dos tuxauas com a “situação alimentar”, na atualidade, que deram a tônica do evento.

Eu pude perceber essa preocupação. A situação atual das práticas alimentares discutidas e apresentadas pelos tuxauas nos indicam, claramente, a necessidade repensar como essa questão, a problemática da alimentação sustentável são vistas pelos gestores dos serviços, que a aldeia recebe nos âmbitos federal, estadual e municipal.Pelas narrativas, parecia que não havia um consenso nas ações junto à comunidade. Se pesarmos muito bem: são vários setores que promovem a alimentação sem exatamente discutirem com os povos indígenas as reais necessidades de um entendimento mais amplo dessa questão.

Quem estava presente, percebeu nas falas desses tuxauas que grande parte das práticas tradicionais alimentares, hoje, não estão sendo mais usadas. Elas foram substituídas por outras práticas, baseadas em comportamentos completamente urbanos e de uma realidade cultural distinta daquelas das malocas da Serra da Lua, por exemplo.

Coordcom: Institucionalmente, de que forma a Universidade brasileira pode contribuir para a valorização da gastronomia e do saber culinário indígena na perspectiva da segurança alimentar?

Renato Athias: Existem vários discursos e retóricas sobre essa mesma questão, podendo ser vista também de vários ângulos, e com várias abordagens teóricas, dentro de uma mesma universidade. Por exemplo: um deles é produzido pela indústria de produção e processamento de alimentos.Pode-se também perceber muito bem a universidade completamente voltada para dar subsídios e apoio científico para essa indústria. A Universidade tem interesses nesse tipo de indústria, pois essa mesma indústria patrocina muitos estudos no campo das engenharias de alimentos, basta você olhar os programas e ver para quem estão direcionados os cursos.  E, talvez a pesquisa para essa área de conhecimento tem os interesses específicos e mantém também uma retórica da sustentabilidade. Porém, as referências de pessoas para esses tipos de alimentos, que essa indústria produz são outras, e em outros contextos, muitas vezes em outros lugares do planeta.

Neste sentido, teríamos uma quantidade de alimentos que são globalizados que são pensados e produzidos com referências de outras populações e a indústria midiática trata de promover esse tipo de alimentação muitas vezes associado a um ideia de gastronomia estereotipada e com espaço significativo na mídia.

Nem sempre o que é proposto na mídia é bom para o corpo. As constituições metabólicas das populações humanas não são padronizadas, etc. Em seguida existem os discursos produzidos no âmbito da saúde sobre o que é bom para o corpo sadio etc. Também leva-se os padrões não indígenas para esse corpo. E os indicadores de saúde são outros normatizados em sua totalidade para uma epidemiologia europeia, etc.

Notamos agora que existem muitos programas na televisão sobre comida, sobre culinárias. Muitas das vezes patrocinados pela indústria de alimentos. Este evento, na realidade, não tratou da culinária e sim, da alimentação sustentável. Aquela que cada povo conhece e a reproduz de forma a garantir o desenvolvimento físico e cultural em conjunto. Cabe a universidade entender que não se pode mais fragmentar as abordagens de pesquisas nessa questão e que deve ser vista em sua totalidade em todos os ângulos.

Coordcom: Como o Doutorado Interinstitucional (Dinter) de Antropologia (UFRR/UFPE) pode sair mais fortalecido deste encontro?

Renato Athias: Este evento foi convocado pela comunidade da Serra da Lua, organizado pelo tuxaua Clóvis e Aglaia Costa que teve seu projeto pesquisa sobre esta questão recentemente aprovado para realizar seu doutoramento, mas, sobretudo, contou com o apoio de várias instituições, todas elas sediadas na UFRR e no movimento indígena conduzido pelo CIR em Roraima.

Este evento lançou um apelo forte para que se trate da questão da alimentação sustentável de uma maneira interdisciplinar e intercultural. Nesse sentido o campo dos estudos antropológicos pode dar uma base muito grande para um debate amplo entre os povos indígenas que não deveria ficar centralizado apenas ou principalmente no campo da saúde.

Deveria ser mais ampla todas as discussões. O evento mostrou que os tuxauas da Serra da Lua tem maturidade para dar a condução de um debate amplo entre os Wapichana e Makuxi dessa região. Mostrou que eles estão abertos, bem como as escolas das aldeias, para um amplo diálogo, e entender o que está se passando de fato sobre essa questão nas comunidades da Serra da Lua.

Coordcom: Qual sua análise sobre os desafios que enfrentam as universidades no campo do investimento na pesquisa científica na dimensão dos cortes orçamentários e da crise política enfrentada atualmente, com foco nos estudo sobre as culturas indígenas?

Renato Athias: Essa é de fato a questão do momento. Sabemos pois, que nesse governo as agências de fomento à pesquisa têm seus recursos reduzidos. Seguramente a indústria de alimentos, que tem diferentes interesses, ficará mais atenta nesse momento em que as universidades estão fragilizadas. E os recursos existentes do Estado são canalizados para outras prioridades e as populações indígenas, que vem passando por graves mudanças culturais no campo da alimentação, não estão no rol dessas prioridades.

Coordcom: Com sua experiência docente e de pesquisador na  Amazônia, como em outros países, e considerando o papel da Ciência no compromisso em permitir reflexões que favoreçam a transformação social, que recado o senhor daria para acadêmicos de graduação e pós (indígenas e não-indígenas) interessados em estudos vinculados às ciências humanas e nos próprios povos ameríndios?

Renato Athias: O recado já foi dado pelos tuxauas da Serra da Lua nesse evento na maloca da Malacacheta. Centralizar os estudos no interesse dos povos indígenas e buscar centralizar os esforços para não fragmentar os estudos dessa importante questão. Fazer com que todos os esforços tenham de fato as bases dos interesses indígenas tendo em vista a sua reprodução física e cultural.

Acredito que os estudos em antropologia podem identificar elementos catalisadores para uma compreensão bem maior dessa questão da alimentação sustentável entre os moradores da Serra da Lua.

 

Entrevista: Éder Rodrigues| Fotografia: RCCaleffi (Coordcom/UFRR)

Contribuição: Aglaia Costa (Proeg/UFRR)

 

 

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