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Universidade Federal de Roraima

Texto da Semana

 

 

 

 

 

  

 

 


Esta coluna apresentará textos introdutórios, elaborados por docentes do curso de Psicologia da UFRR, objetivando incentivar o contato/conhecimento das produções originais de teóricos(as) da Psicologia. Buscaremos sugerir textos que possam ser relacionados a algum aspecto atual das nossas vidas.


 

Dor, desamparo e luto no transcurso da Covid-19

Maria do Socorro Lacerda Gomes
Curso de Psicologia, Universidade Federal de Roraima

As perdas são inerentes à condição humana. Ao longo da vida o ser humano é obrigado a passar por momentos de dor, ruptura e tristeza, sentimentos cujas consequências impõem elaborações contínuas (KOVÁCS, 1992). Embora as perdas sejam naturais no processo evolutivo, a pandemia do novo coronavírus impôs um profundo impacto na vida das pessoas através das inúmeras mortes em curto período de tempo, deixando milhares de enlutados abruptamente.
Diversos são os lamentos dos familiares de vítimas da Covid-19, dentre os quais destacamos o depoimento de uma jovem viúva, mãe de uma criança, que dizia: “Meu amor, você prometeu que voltará, que não me deixará sozinha para criar o nosso filho […] Não conseguirei criar o nosso filho sem você.”, dias antes do falecimento do seu esposo e o lamento de uma sobrinha, algumas horas após a informação do óbito do seu tio, declarando: “Não sei onde colocar esta dor”. Ambas, são demonstrações de pesar que denunciam quanto a morte nesta pandemia tem sido dolorosa e desamparada.
Neste contexto, a probabilidade de haverem lutos problemáticos deve ser motivo de preocupação das autoridades de saúde mental e já é declarado por estudiosos que as sequelas emocionais nos sobreviventes poderá representar o pior da pandemia. E não sem motivos, uma vez que este vírus de potencial avassalador, é agressivo em todos os sentidos, pois sua transmissão é rápida, silenciosa e devastadora. Soma-se a isto o alto risco de contaminação que obriga a construção de sentido na adaptação das regras do isolamento social e na impossibilidade do acompanhamento hospitalar dos pacientes durante a internação, culminando no impedimento da realização dos rituais de despedida após a morte.
Sendo inquestionável a importância dos rituais de despedida na vivência do luto, o impedimento da sua realização tanto na iminência da doença por ocasião do contágio e internação, quanto no momento da morte pela proibição da realização dos rituais funerários podem dificultar a experiência do luto, pois ocorre uma espécie de morte que, embora constatada é uma morte sem cadáver, apesar de haver um cadáver num caixão vedado. Assim, na interdição do corpo, é como se o fato não tivesse ocorrido e a angústia se avoluma (CARRANCA, 2009)
Das cenas das vítimas da Covid-19 sendo levadas por caminhões para a cremação em Bérgamo, na Itália, em março de 2020 aos sepultamentos em valas comuns na cidade de Manaus, Amazonas, em abril de 2020, o que se vê pode ser definido como dor e desamparo.
Em Manaus, pudemos ver familiares desesperados, mas também atônitos e paralisados diante de caixões lacrados e sepultados rapidamente devido o risco da contaminação. Impedidos de realizarem os ritos mais elementares como velar, tocar, olhar o corpo do ente querido, até o fato de não poderem, os vivos, aproximarem-se para um abraço de consolo, somos compelidos a pensar no que está por vir após a pandemia no que se refere aos sentimentos e resoluções dos lutos. Segundo a psicanalista Maria Rita Kehl, a impossibilidade de velar os mortos devido o risco do contágio poderá levar a um sofrimento permanente “Talvez seja infindável o luto dos familiares” (KEHL, 2020).
Uma perda de qualquer ordem provoca sofrimento e gera uma experiência de luto. A pandemia do coronavírus instaurando a morte num curto espaço de tempo e contexto de interdições dos rituais dificulta a experiência do enlutado e aumenta as chances dos lutos complicados. Embora o luto seja uma reação natural e sua tarefa seja de adaptação e reconstrução, tal processo não se dá sem algum esforço e contribuição de diversos fatores, desde os individuais - estrutura psíquica de cada enlutado e seu histórico de perdas, passando pelos fatores culturais e religiosos até o apoio familiar e social recebido.
Consistindo no trabalho de recomposição da vida diante da morte de uma pessoa querida, as cerimônias fúnebres são fundamentais na construção de sentido e processo de recuperação no luto. Ademais, os rituais de passagem de cada cultura, tais como: choro, lamento, extrema-unção, velório, enterro, cremação, entre outros, são modos, costumes e celebrações importantes para a manifestação da dor, possibilitando a acolhida e apoio social, tão importantes na minimização do sofrimento. Embora os rituais do luto tenham se modificado ao longo do tempo e sejam específicos para cada lugar e cultura, há consenso da sua finalidade, visto que, representam a maneira de cada povo despedir-se e têm valor de construção do sentido da perda, ausência e, paulatinamente, no processo de recuperação ou novo sentido para a vida.
O trabalho do luto é necessário, pois consiste no teste de realidade ao revelar que o objeto amado não existe mais e passa a exigir que a libido seja retirada das ligações com esse objeto para ser, gradativamente, redirecionada. Esse é um processo natural, saudável e gradual, portanto, sua interdição é um dos grandes equívocos da atualidade. Ademais, como ressalta Carone (2011, p. 49), contra a prova de realidade, levanta-se uma compreensível oposição, pois “em geral se observa que o homem não abandona de bom grado uma posição da libido, nem mesmo quando um substituto lhe acena”. Por conseguinte, “essa oposição pode ser tão intensa que ocorre um afastamento da realidade e uma adesão ao objeto por meio de uma psicose alucinatória do desejo” (CARONE, 2011, p. 49). Sendo normal que o apego do enlutado diminua aos poucos, não há necessidade de apressá-la, visto que, aos poucos, a ausência do objeto vai impondo o desligamento do ego até que este se veja novamente livre para novos investimentos e pronto para voltar a viver, ressalta Kehl (2011).
Trata-se de viver o luto, digerindo esta vivência paulatinamente, podendo conter, também, o reconhecimento da ausência de respostas para a perda rápida e inesperada das vítimas desta pandemia. No entanto, embora o processo de luto seja individual deve-se considerar o risco de um luto traumático e, neste sentido, disponibilizar serviços de acolhimento e apoio ao enlutado que ofereçam escuta atenta e efetiva/afetiva para as declarações de dor e desamparo diante do lamento da perda objetivando minimizar a ocorrência de um luto não elaborado.


Referências

CARRANCA, Adriana. (2009). A dor de quem não teve a chance de viver o luto e enterrar seus mortos. O Estadão. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-dor-de-quem-nao-teve-a-chance-de-viver-o-luto-e-enterrar-seus-mortos,383610,0.htm>. Acesso em: 15 jun. 2020.
CARONE, M. Luto e melancolia. In: KERL, M. R. (Org.). Luto e melancolia: Sigmund Freud. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 44-97.
KEHL, M. R. Melancolia e criação. In: KERL, M. R. (Org.). Luto e melancolia: Sigmund Freud. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 9-31.
______.Talvez seja infindável o luto dos familiares (Matéria de Luiz Fernando Vianna, publicada em 19/04/2020). Disponível em: <https://epoca.globo.com/talvez-seja-infindavel-luto-dos-familiares-diz-maria-rita-kehl-1-24382274>. Acesso em: 07 mai. 2020.
KOVÁCS, M. J. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.